1 de agosto de 2004

O PAÍS IMAGINÁRIO

O DN tem cronistas maravilhosos, como a Vera Roquete e a Maria João Lopo de Carvalho. Esta última (escritora, no sentido que matraqueia nas teclas como os que o são) vem, esta semana dar uma palavra de esperança a alguns pais preocupados. Sob o título "Dores de barriga", traz à luz o gravíssimo problema dos progenitores aflitos com as viagens dos filhos ao estrangeiro. "Nesta época de Verão, já é quase moda do século bandos de crianças (...) partirem como as cegonhas ou as andorinhas rumo aos países frios". A Escândinavia e Assim..., presume-se. Recebidos em colégios internos ou "no seio de uma nova família", os louros rebentos lá vão. Para grande dor de barriga dos paiiiiiiisss.
No parque de campismo de onde regresso (1.60 euros por tenda com mais de 6m2) não se falava de outra coisa. As centenas de campistas enquanto contavam o dinheiro que levariam no dia seguinte à praça, estavam apoquentadíssimos. Era ouvi-los: " Ó rica..., não sei se mande o Vítor Emanuel para a Baviera, se para um campo de férias na Escócia, o que é que a menina acha...?".
É este o país que as santanetes imaginam habitar.

INTERMITÊNCIAS
Este mês vou andar cá e lá. Os posts acompanham.
Quando passar por casa, se tiver alguma coisa a dizer, actualizarei.
Como hoje, por exemplo.
Boas férias aos que as tiverem :)

27 de julho de 2004

roniscarrefour.jpg
GHOST
Os fantasmas são pessoas que não morreram completamente. Recusam-se. Ou a gente recusa-se a aceitar a sua morte. Às vezes visitam-nos, consoladores, em pequenas coisas. Outras, desenham apenas o seu perfil no vazio, para nos recordarem a sua ausência.
CONAN, UMA VEZ MAIS

Vivia fora de Portugal aquando das repetições na SIC. Por isso já lá iam 20 anos (se não mais) que não o via pendurar-se pelos dedos dos pés, enfrentar tufões e atirar grupos de maus ao ar à força de braço...
Entretanto fui descobrindo quem era o Myazaki, os seus filmes e o seu maravilhoso talento. Fui relembrado à força de dvds de que o talento de um criador não se deixa impressionar com a passagem do tempo.
Aguenta-se pelos dedos dos pés no vazio, imagino eu...
FUMOS 2

Chegam-nos imagens da serra da Arrábida cinzenta, com o mar a persistir no azul em baixo. Não tenho notícias da cimenteira, mas como erva ruím não morre, ainda lá ha-de estar a poluir quando possa.
FUMOS 1

Quase debaixo da minha janela, um andar abaixo, dois homens fumam cigarros atrás de cigarros. Está calor e distraem-se assim. Têm os pés assentes num apartamento comprado ou alugado, os braços estendidos na direcção da rua que é pública. E contudo, é nas paredes do meu quarto que o fumo se aloja, incidioso e nojento.
Tudo legal e praticamente correcto. O cancro quase privado.
Isso traz-me à memória uma carta publicada na Grande Reportagem deste sábado. "(...)que dizer do meu local de trabalho, o serviço de anestesia do Hospital de Santa Maria, onde tenho de "gramar" a poluição horrível e sufocante dos meus colegas viciados do cigarro(...) Impressionante a cadência com que aquelas doutoras anestesistas consomem cigarros durante as horas de serviço incomodando tudo e todos, viciando o ar ambiente das nossas instalações (...)E eu que julgava ser proibido fumar nesas instituições de saúde. Meus Deus, como sou ingénuo".

25 de julho de 2004

GATÍCULA

Enquando o gato me morre pelas cadeiras e superfícies frias da casa, incapaz, o pobre, de despir o casaco de peles, varro-me a mim próprio do sofá em chamas para me despejar no caixote do lixo dos mortos de calor...

24 de julho de 2004

CONTINUAR
Lendo o programa de governo, disponibilizado na net, verifico que a ministra da cultura tenciona continuar a política do seu antecessor.
Segundo as últimas notícias, Harry Potter já terá declarado "Ela que nem pense que eu vou voltar a emprestar o meu manto de invisibilidade a um ministro!".

harry_invisible.jpg         

O FOSSO
Qualquer pessoa que tenha estado num país subdesenvolvido estará habituado ao choque de ver gente podre de rica  a passar nas ruas onde se sofre com fome. Quando aconteceu o 25 de Abril e a música de Carlos Paredes se confundia com canções ingénuas de intervenção julgou-se que isso nunca mais aconteceria em Portugal.
Hoje, no país em que o primeiro-ministro entrega programas de governo em cd-rom (o que é bom para as árvores) temos 400.000 desempregados (declarados) e um aumento astronómico da venda de carros de luxo. A Jaguar aumentou mais de 400 % as suas vendas, no ano passado, venderam-se modelos que custam meio milhão de euros e por aí fora...
É por estas e por outras que o discurso de que é preciso que os empresários rebentem de ricos para que os pobres possam ter uma sopa na mesa se torna mais chocante. Para mim, para mim, pelo menos...

23 de julho de 2004

MÚSICA
As hárpias hão-de estar felizes: 2004 foi o ano de todos os desaparecimentos.
Pediram-me há um ano atrás que escrevesse um texto sobre a música de Carlos Paredes. Ocorreram-me imagens de mineiros, gente que arrancasse música da rocha. Com esforço. E que a energia dessa dificuldasse levasse a notas mais altas do que se julgaria possível. Falo de memória. E é na memória que lembraremos a sua forma de fazer. O resto fica para o futuro. Para os que voltarem a pegar nas suas composições.

22 de julho de 2004

JORNAL DO INCRÍVEL

Hoje de manhã, ao sair de casa, ouvi gemer. Fui encontrar um homenzinho louro, a gravata à banda e ar de pânico, escondido atrás do caixote do lixo.
"POR AMOR DE DEUS, não me denuncie...", pediu ele, "Esta madrugada, quando ia a passar na 24 de Julho, fui perseguido pelo Santana Lopes". Neste ponto da história, arrepiei-me: ser perseguido pelo actual (risos) primeiro-ministro deve ser uma experiência difícil. "Queria que eu fosse secretário de estado da Noite... Que eu tinha sido a primeira pessoa a passar por ali e por isso... Eu recusei, dizendo que tinha tido uma avaria no carro  e que estava a tentar resolver o problema... Aí ele deu-me uma palmada no ombro e declarou que então passaria a ser secretário dos Transportes, ou das Avarias Gerais, ou dos Acasos Improváveis... Por amor de Deus: não diga a ninguém que aqui estou".
E dizendo isto, retirou um cornflake que tinha ficado pegado à caixa que comeu com ar aflito...

21 de julho de 2004

NACIONAL POSITIVO
Num tempo em que toda a gente só pede e reclama, foi muito agradável ver uma das responsáveis da empresa Carapau de Corrida sorrir e declarar a sua vontade de trabalhar e ir ao encontro da sua clientela pequenina. As roupas e acessórios são de facto lindos, ou assim me pareceram através da televisão. A imaginação parte ali à desfilada, com bolsos que os putos podem mudar de sítio se lhes der na real gana e vestidos-relva que nos remetem para aquilo que a infância deve ser: um lugar tranquilo onde se pode sonhar sem medo do que pareceremos.
Para os pais que muitos de vocês são, sugiro uma visita aqui. :) 
SURPRISE!!!
Parece que o Paulo Portas terá ficado surpreendido quando Santana Lopes se lembrou de anunciar que afinal também ia ter de se chatear com os pescadores.
Não me admira: somos muitos os surpreendidos com o facto de ele ter chegado a ministro de qualquer coisa...

UM NOVO ROMANCE
Reparo, na entrada do blogue, que no último ano e meio já publiquei 1087 posts (1088, com este).  Bem feitas as contas, estou a ver para onde é que foi a energia que deveria ter dado à escrita do romance. Ah, prazer, que não te livras do epíteto de "inculto"! (lol)

SEU ESTE, SEU AQUELE!
Ontem ia andando à porrada. Dito assim soa exactamente àquilo que quase foi: o descontrolo da imaturidade. Embora menos divertido do que as memórias de infância.
Perguntam-me por quê? Se foi para defender a liberdade de expressão, ou para salvar das garras de um terrorista uma italiana indefesa (como se existissem...!)... Enfim, há-de ter sido por coisa de monta, isto de adultos quase chegarem a vias de facto. Mas não.
Foi por um lugar de estacionamento.
Depois de inúmeras voltas no parque de estacionamento de um centro comercial, vislumbrei um carro que saía. Fiz o que normalmente se faz: abri sinal e encostei à direita. Infelizmente, de frente chegou um outro carro. Que abriu sinal. Surpreendido fiz-lhe sinal que (como se vira) tinha chegado e que iria estacionar ali. Ele insistiu no pisca. E eu na pretensão. A fila de carros avolumava-se atrás de ambos. Mal o outro desencostou, cheguei-me à frente. Foi o tempo dos insultos que ali se instalou. Enlouquecido, aos gritos, o casal do outro lado berrava que aquele sítio "era deles"; que eu teria "manifestado a intenção breve de não me apetecer estacionar ali" (em tradução foi mais ou menos isto: "$#"/&&=/=(&()(  na )(/()/&(/& desse lugar, mas como são todos uns P=/&/)/( e )(/(/&/%#"""!!#).  O homem queria mesmo sangue. Eu só queria estacionar. As dezenas de carros que foram chegando e buzinavam furiosamente estavam mais viradas para ir procurar um lugar para eles. Foi este coro de buzinadelas que o levou a desistir. Sem ao menos ter podido trocar uns socos. Como se faz no buraco onde mora. Como se fazia na infância que lhe calhou. Como há-de fazer quando a gritadora que vai ao lado lhe berra aos ouvidos.
A violência não me amedronta, sempre que tenho razão. Mas surpreende-me. Parece-me que não há-de existir sobre aquela forma por lapidar.
Mas sou eu, que não vivo com os pés a 100% na terra.

19 de julho de 2004

DA JANELA DO AUTOCARRO 74
avisto o que se convencionou chamar uma "tiazorra" (que consiste numa espertalhona, a quem a vida não beneficiou com heranças ou educação, mas que está disposta a chegar ao topo apoiando os bicos afiados dos sapatos nas cabeças de quem for preciso). Lá ia, com o cabelo quase louro ao vento, as argoletas a desafiarem a gravidade, o bronzeado artificial a chupar-lhe a cara comida pela dieta. Isto tudo embrulhado num "tailleur" que um dia (talvez) será pago à loja.
Quem morou nos subúrbios das cidades entenderá melhor do que falo, pois é ali que deambulam, escorrendo baba, os cães vadios.
 
CASAS
 
Segundo leio, o preço do aço desceu, diminuindo os custos de construção. Paralelamente, o preço médio das casas subiu, no mesmo período, 3,4 %. Eu sei que não fui grande aluno a matemática... mas ainda assim, tenho um pressentimento de que algo está errado com esta conta.
Uma das coisas mais divertidas quando se viaja é comparar os preços das habitações entre as grandes cidades europeias e QUALQUER cidade portuguesa.  É sempre fascinante saber que um apartamento de 3 assoalhadas no centro de Paris pode custar o mesmo que um T0 em Chelas. Julgo que esta diferença se explica com os ordenadões que recebem os trolhas ucranianos ou guineenses no nosso país... Pobres empreiteiros portugueses.
 
 

17 de julho de 2004

TOMADA DE POSE
 
A composição do novo governo foi a esperada: dois homens fortes que transitam e contemplam  a continuidade da coisa estável; um que vem de arrasto porque qualquer um que lá caia será como um pena que voa entre interesses farmacêuticos, corporações médicas e necessidades tão grandes que nunca serão alimentadas a contento; e o grupo dos amigalhaços. Nada de novo nisto, basta olhar para governos anteriores para ver que sempre foi assim.
Da mesma maneira que a concepção que os primeiro-ministros têm das mulheres. Neste, apenas 3, entre 12. A ocuparem as pastas que um Portugal machista aprova: a escola e a cultura. No primeiro caso, porque é destino da mulher (além do maravilhoso dever da maternidade, como diria o actual ministro das Finanças...) educar as crianças. A outra parte cumpre o lado decorativo. Não há coisa mais bela e inútil do que a Cultura, nesta visão. Logo, nada melhor do que uma mulher para a ocupar.
Pergunto a mim próprio como é que os milhões de mulheres portuguesas não tomam consciência disto e vão para as ruas pedir a chegada do século XXI...?
 
artificial-flower-orange-1-DHD.jpg      

16 de julho de 2004

NA PRATELEIRA ONDE NADA SE REPETE
 
"Então, Barnabé, tudo ficou prompto?
"Sim, meu senhor."
"Está a gaiola arranjada, o que falta é o pardal!"
Riu-se, abrindo uma boca monstruosa.
D. Paio não secundou o riso do seu humillissimo servo; mas pareceu agradar-lhe a demonstração.
"Estou satisfeito de ti porque me tens servido a meu contento. És um excellente servo"
 
in A CONQUISTA DE LISBOA, Carlos Pinto de Almeida, 1866